Para Jung, o processo de individuação ou da formação da personalidade individual realmente autoconsciente é essencial ou “absolutamente necessário” (O eu e o inconsciente § 373) para o ser humano pleno, e Osho o seguiu neste pensamento.
A diferença deste último para o primeiro é que o pensador e psicólogo suíço possuía um foco de pesquisa científico e objetivo, ou seja, baseado no que podia observar nos seus casos analisados, sobretudo de indivíduos ocidentais, enquanto o indiano partia da observação interna ou subjetiva, ou seja, a partir das próprias experiências, que apresentam algumas diferenças para a psicologia junguiana, e afirma que o ser humano há de ir além de sua personalidade, transcendê-la.

Não queremos dizer com isso que Jung não estivesse dotado de um rico universo subjetivo próprio com que trabalhar, nem que Osho, um leitor voraz, não se apoiasse em conhecimento objetivo, como o fazia no do próprio Jung.
A principal dessas diferenças, e talvez o motivo da Índia não ter desenvolvido uma psicologia avançada como a Jung, apesar de estar lidando com a mente e o autoconhecimento há milênios, é que o foco indiano não está, ou não estava, na mente, mas sim na consciência, que na sua terminologia é diferente daquela e está mais ligada ao aspecto do “ser” como observador, que tem a potencialidade de testemunhar até mesmo a mente e seus processos.
Jung descreve muitos desses processos como ninguém.
Nem Jung nem Osho nem nós estamos falando de teoria, mas de fatos existenciais que ajudam pessoas reais quando estas se deparam com dilemas e dificuldades em suas vidas. Neste campo, estatisticamente falando, Jung ou outras abordagens ocidentais parecem ter um maior efetividade terapêutica (para o ser humano ocidental de nosso tempo), mas existe um ponto, quando o processo de individuação está em grau avançado (mas não necessariamente somente nesse ponto), que o ser humano pode se perguntar: e aí? ou é só isso?
É então que uma abordagem mais transcendental se torna potencialmente mais útil.
Não que não haja perigos nela, ou que a abordagem de Jung não contenha uma boa dose de transcendentalidade. Vamos tomar um exemplo do seu livro O eu e o inconsciente. No parágrafo 236, ele conta sobre indivíduos que, ao tomar consciência de elementos coletivos do inconsciente, puderam experimentar amor ou empatia pela primeira vez na vida, identificando-se com causas humanas universais. O, a princípio, salutar despojamento do ego que resultou disso também os levou, em casos limite, à esterilidade e à monotonia.
Em outras palavras, talvez alguns deles tenham se desidentificado de si antes da maturação do “autoconhecimento pessoal”, a “individuação” no vocabulário de Jung ou “cristalização da individualidade” no de Osho (agora seguindo Gurdjieff). Antes mesmo de se tornarem indivíduos – ou seja, individuais, indivisos, únicos -, se tornaram coletivos.
Mas talvez o melhor remédio para essa apatia não seja a reafirmação e reforço do ego. Essa potencialização da individuação pode possivelmente levar ao egoísmo ou egocentrismo nocivos ou, nos casos “sadios”, a uma estabilização que pode levar novamente à pergunta: “e?”
Existe outro caminho: o conhecimento transcendental teórico (como o que apresentamos aqui) e prático (como o obtido pela meditação).
Mas será que a despersonalização é sempre patológica?
Jung pode soar espiritual para um materialista, mas material para um espiritualista ou religioso: quando ele usa a palavra “alma” a identifica com o grego psyhê e quer dizer a completude da psique ou mente humana (consciência do eu + inconsciente), que é experimentada como self ou “si mesmo”, por isso psicoterapia = “tratamento da alma” (A prática da psicoterapia, § 204- e 212).
Porém, dentro do princípio semântico e existencial do que entendemos por “alma” existe algo que está além da mera mente, que não está no domínio da psicologia e que não precisamos recorrer a pressupostos espirituais para admitir: a vida, o princípio vital, o ser, a testemunha – este não é um complexo, não é uma construção mental, mas os precede. Jung vai falar do “eu” como complexo, que é o que pode ser observado, mas isso é fruto da associação secundária do eu real, a consciência pura, com o conteúdo da mente.
É por esse motivo que alma e mente podem se correlacionar no dicionário (e talvez no vocabulário junguiano), mas na prática são coisas diferentes. Alma é melhor descrita como mente + consciência “pura”, que é a própria “essência da alma”.
A a rigor, pode-se dizer que todas as nossas camadas psíquicas e energéticas, e até mesmo as físicas, compõem “a alma” – a diferença entre corpo físico e mente é só de densidade de manifestação.
Por isso os iluminados repetem: você não é a sua mente.
É importante frisar que o genial Jung não estabelece limites para a alma humana e seu inconsciente, deixando campo potencial aberto para o que de transcendental pode haver em nós. Por isso, além de uma prateleira de livros de autoconhecimento que abordam diferentes aspectos da experiência e psicologia pessoal, temos outra de autoconhecimento transpessoal, denominada Jnana Yoga.
Dissemos tudo isto para abordar a questão da despersonalização. Nem sempre o indivíduo que transcende o ego cairá nas misérias e mediocridades do inconsciente coletivo: há outro caminho. Com alguma dose de autoconhecimento e provavelmente meditação, ele pode se tornar capaz de observar a mente e seus processos, tanto pessoais como coletivos. Esta seria a transcendência real ou absoluta, a de si mesmo.
Agora, será que essa despersonalização “com autoridade” pode levar à mesma esterilidade e à monotonia ou falta de motivação experimentada pelo transcendente ao ego que flui no coletivo?
Com certeza. Na Índia chamaram todas essas camadas que envolvem a consciência de maya, mal traduzindo, “ilusórias”, e o jogo ou brincadeira desta maya é parte de nossa distração e motivação – esta alma necessita de ilusão.
Se o caminho desse autoconhecimento transcendental não está isento de riscos, é também verdade que no próprio processo de conquista dele vamos ficando mais sábios e possuidores de uma compreensão muito mais ampla dos altos e baixos que qualquer percurso apresenta.
Há um livro compilado de Osho chamado Liberdade, para o qual alguém escolheu um subtítulo muito feliz: a coragem de ser você mesmo.
Transcendência e consciência: o ego como função
O ego é uma função ou ferramenta social e de sobrevivência. Por esse motivo, mesmo nos indivíduos despojados ou desapegados, ele sempre volta e retoma força. Se a pessoa não descobriu, realmente, o que o ego é, em outras palavras, se ela ainda se identifica com sua mente, tende a ficar perdida entre ele e sua transcendência.
A pessoa que se conhece ou chega a esse ponto de capacidade de observação segue utilizando a mente e o ego, mas sabe que não é eles. Ela estará consciente quando alguém se aproximar para se aproveitar de seu despojamento do ego, como fazem pseudoigrejas com seus fiéis com o intuito único de arrancar-lhes dinheiro, e poderá continuar utilizando a função do ego para se defender.
Ela ainda vai, por algum tempo, continuar se sentindo ofendida ao ser ignorada ou menosprezada, mas cada vez que isso acontecer poderá servir de termômetro para seu grau de observação transpessoal.
Não obstante, a tendência é que o desapego ao ego a deixe mais pobre financeiramente, não por sucumbir a aproveitadores, mas por uma questão de foco em coisas mais importantes como a vida, o amor, etc. No entanto, é verdade também que ele a deixa mais rica interiormente.
Ramana Maharshi, Buda, Jesus: nenhum deles era rico do ponto de vista material, mas sua riqueza interior, real, era abundante.
Vida (potencialmente) divina
A gama de experiências que potencialmente pode-se viver nos domínios transpessoais (ou impessoais por excelência) é muito mais extensa, quantitativa e qualitativamente falando, do que a que se pode experimentar no âmbito pessoal, já que no primeiro caso, na prática, há mais soma de ambas do que perda da segunda.
Na verdade, mais conscientes, somente o que não nos serve ou não nos interessa mais é naturalmente descartado; nada do que nos apraz precisa ser eliminado.
Paradoxalmente, a maior parte das limitações que nós mesmos, seguindo o inconsciente coletivo e seus pseudomestres e pseudoreligiosos, nos impomos está no domínio da mente e do ego, ou seja, somente os transcendendo você realmente percebe, por si mesmo, que não precisa abdicar da alegria, do desfrute, da celebração, do sexo, etc. para se autorrealizar.
Quando Você não for mais você, você se torna tudo, aquilo que pode se chamar Deus, vive a divinidade e percebe que Deus está brincando!
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