Uma característica do início da Epístola aos Gálatas e de outras passagens de Paulo é a defesa e apologia que ele faz de si mesmo, do seu ministério e da sua doutrina ou evangelho.
Em 1.1, Paulo afirma ser “apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai)”.
Paulo, antes um fundamentalista judeu mas ainda conhecedor e utilizador das escrituras, afirma em 1.15 ter sido separado desde o ventre de sua mãe, como Jeremias (Jr 1.5).
Essa autoapologia tem uma, ou duas, razões de ser: não muito antes de escrever a epístola aos Gálatas, Paulo havia ido a Jerusalém, provavelmente convocado pelos líderes da comunidade Tiago, Cefas [Pedro] e João para esclarecimentos a respeito do “evangelho” que estava pregando, diferente do deles, que estava mais associado a religião e costumes judaicos (como a circuncisão), conforme ele relata no cap. 2. O relato que, décadas depois, o autor de Atos faz pinta uma cena de muito mais harmonia entre Paulo e esses líderes do que ele próprio relatou.
A segunda é que o desfecho dessa reunião não foi tão conciliatório como o próprio Paulo relata, já que os líderes da “igreja” de Jerusalém agora estão enviando missionários a congregações na Galácia, Corinto, Filipos e outras localidades lideradas por Paulo que, vendo sua autoridade ameaçada, fica incomodado e enciumado (conf. por ex. 2Co 11.1-3) com a situação, voltando também à carga contra eles.
Em Rm 15.20 e 2Co 10.16, Paulo declara não estar anunciando ou pregando seu evangelho em campos de outros: dos líderes de Jerusalém que defendiam um Jesus com papel messiânico, mas longe ou diferente do Cristo Jesus de Paulo. O evangelho que Paulo anuncia é seu próprio evangelho, e também não é o que conhecemos hoje como “evangelho”, a partir da composição de Marcos, do qual Paulo é uma parte.
Para Paulo, os que não acreditam ou não aceitam seu evangelho é porque estão cegos no entendimento (2Co 4.3-6).
Pensemos em quanto o discurso cristão de hoje e de todos os tempos não são mais do que repetições de Paulo.
“Tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho” (Gl 1.6-9) e “se alguém vindo pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofreríeis” (2Co 11.4), “porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo… porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz” (2Co 11.13-15).
Frases de Paulo em suas epístolas
Os adversários de Paulo são exatamente Tiago, “irmão do senhor”, e seus enviados desde a comunidade de Jerusalém.
Em vídeo citado n’outra parte, Jonathan Matthies cita os ebionitas, “judeus-cristãos” que acreditavam que Jesus era o messias mas para quem os escritos apostólicos, com os de Paulo, seriam desvios.
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