Espírito

Wakan Tanka ou Wakanda, o “Grande Espírito” dos Dacotas, é a essência ou energia vital difundida por toda parte e presente em todos os seres – na verdade, é o que nós realmente somos.

Em outros idiomas de povos nativos americanos, esse princípio, força ou energia vital (espírito) é identificado, por exemplo, como oki pelos iroqueses e manitu pelos algonquinos.

➡️ spīritus: ar; respiração; sopro. Do verbo spīrō – “respirar”, “soprar”. (Latim)

Espírito
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A palavra “espírito” origina-se etimologicamente do latim spīritus – “ar”, “respiração”, “sopro” – e significa o “sopro vital” ou “princípio vital”, aquilo que anima a matéria.

As palavras atman, no idioma sânscrito, pneuma, no grego, e ruach ou rúakh, no hebraico, possuem em suas etimologias esses mesmos significados – por ar, sopro e respiração expressam algo sutil que seres humanos dos mais diversos povos intuíam, ou melhor, sentiam em si.

A relação entre “ar” e “espírito” na linguagem grega pode ser verificada no relato do dia do Pentecostes do livro de Atos dos apóstolos (2:4): Pnêumatos (flexão de pneuma) Haguíou (santo, sagrado) é o Espírito Santo, que encheu toda a casa e a todos, vindo como um som de um sopro ou “vento” (pnoês, da mesma raiz grega pnéo [soprar, respirar]) (2:2). Veja também “respiração” (pnoên) como princípio significativo da vida dado por Deus, em 17:25.

No hebraico, o Ruach Elohim (Espírito de Deus), aéreo / espiritual, “se movia sobre a face das águas” (Gn 1:2).

Espírito e espíritos

Talvez pelo processo linguístico da metonímia, em que usamos uma parte para definir o todo, “espírito” passou a significar, também, tanto no latim como nas mais variadas línguas, o “espírito” ou “alma individual” dos seres.

Os espíritos provocam uma espécie de vento frio quando se manifestam e em geral a aparição de fantasmas se acompanha de sopros ou correntes de vento.

Marie-Louise von Franz, em A interpretação dos contos de fada, cap. 4, A interpretação de um conto: “As três penas”

Espírito e alma

Mas para denotar esse “espírito com atributos individuais” os idiomas atribuem também, geralmente, outras palavras.

No latim, temos a palavra anima (da qual deriva “alma” no português e espanhol), também etimologicamente ligada a “respirar”, mas que tem o sentido “daquele de respira”, ou seja, a “alma”, a “vida”, que é sinônima de “espírito” (a rigor somente) no sentido metonímico deste.

Também em outras línguas antigas encontramos novamente palavras que expressam o mesmo fenômeno ou possuem o mesmo significado que anima, como o sânscrito jiva, o grego psyhê e o hebraico néfesh.

Um exemplo de uso que torna clara a distinção entre os termos pneuma (espírito) e psyhê (alma) no grego está na 1ª carta de Paulo aos Tessalonicenses (5:23).

Essa semelhança etimológica se justifica semanticamente, pois a alma, seja no sentido espiritual, seja no materialista, também é sutil, volátil.

Linguística e clareza conceitual

Não esqueçamos que estamos tratando de linguagem, de símbolos linguísticos usados para expressar a experiência, o fenomênico. Uma mesma palavra pode gerar campos de associação diferentes em cada pessoa. É comum, portanto, vermos a utilização da palavra “alma” para se referir ao que chamamos aqui “espírito” (da mesma forma que outras vezes é usada como “mente”).

É o que acontece, muitas vezes, na tradução de autores orientais, como textos em sânscrito, em que muitas vezes “atman” vira “alma”. A acurácia dessa tradução pode ficar dependente do que o leitor entende por “alma” e, mesmo se traduzida mais aproximadamente por “espírito”, deveria sempre ser acompanhada de uma nota explicativa.

O que estamos tentando trazer aqui é um pouco de clareza conceitual para quando empregarmos esses termos.

Como vimos, na terminologia ocidental (latina, helenística e judaico-cristã), que é seguida pelo Espiritismo Kardecista e também, a seu modo, por pensadores como Jung, a palavra “alma” está associada com a existência espiritual individual do ser, então essa associação é a que mais se faz entender universalmente.

Do conceitual ao existencial, poderíamos dizer que a “alma” é espírito (princípio vital) + mente ou que o espírito é a essência da alma.

Espírito ou vida

Quando falamos desse espírito, desse princípio animador, não estamos falando de algo hipotético, ainda que a profundidade que se dê a esse termo possa variar de acordo com as convicções de cada um.

Isso que anima a matéria pode ser chamado em termos materialistas de vida.

O que é de fato a vida, e como ela surgiu ou se manifestou ainda é um mistério para a ciência.

Pode-se negar que exista um espírito, mas não que a vida exista.

(Paramos novamente; neste campo, é difícil escrever sem notas!) Algum filósofo mecanicista pode chegar à conclusão de que não existe “vida” ou “princípio vital” mas, se olharmos atentamente, isso pode ser o mesmo que afirmar que tudo é vida.

Essa correlação de espírito e vida se faz para lembrarmo-nos de que não estamos falando de algo hipotético, mas existencial, real, e que nossa experiência espiritual independe de uma crença religiosa.

Tem muito ateu fundando e participando de ONGs e movimentos para preservar a vida como um todo e o planeta, considerados sagrados para os povos nativos, e tem muito devoto e religioso apoiando políticos, e políticas, que os destroem.

Deixemos claro, aqui, que existe algo realmente espiritual, além do orgânico. Algo que não é em nosso cérebro, mas em todo nosso ser, uma consciência-existência-eternidade que está além da mente e que, a depender do grau de manifestação, pode se tornar perceptível inclusive para os outros, conforme Paul Brunton relata a respeito de seu mestre Ramana Maharshi em A Índia Secreta, que era capaz de transmitir ensinamentos e percepções em absoluto silêncio a seus discípulos (caps. XVI, Num eremitério da selva, e XVII, Tabuinhas de verdades esquecidas).

Somos todos um

Espírito e seres
Espírito e seres © chela.com.br (pode ser copiada, com link para nosso site no crédito)

E a vida não está, de fato, separada. Nossa epiderme não pode servir como limite, um ponto a partir do qual poderíamos dizer que “esta é a minha vida”. Da mesma forma que dentro de nossos corpos há, interconectadas, milhões de formas de vida entre células, bactérias, vírus e outros microrganismos, esse mesmo tipo de vida, presente no ar, rodeia nosso sistema orgânico exteriormente. Nessa conjectura, podemos afirmar que o planeta Terra também é um sistema vivo, do qual fazemos parte.

Nos conectamos com toda a vida na Terra através dos elementos que compõem nosso corpo físico, como o ar inspirado e expirado e os alimentos e líquidos que ingerimos e expelimos. A Cenoura, uma raiz de natureza vital vegetal, que vivia ontem no campo foi nutrida pela Terra e a vitalidade do Sol, é trazida por outros Viventes Humanos para Você e hoje se torna parte de seu sistema vital corporal. Amanhã, partes vivas residuais dela são eliminadas e voltam para a Terra, da mesma forma que todo o seu corpo veio da Terra e do Universo e volta para eles.

O mesmo se pode dizer sobre nossa ancestralidade: possuímos em nossos corpos, carregadas na “memória” de nosso DNA, características e desenvolvimentos de nossos pais, avós, bisavós… até inimagináveis gerações.

Somos o elo entre o passado e o futuro e, no fundo, é sobre construirmos aqui, neste plano, nesta Terra, um presente sustentável que permita que o espírito possa continuar sua jornada na forma humana por aqui.

Nessa temática, podemos citar dois interessantes livros: Sonho manifesto, do Sidarta Ribeiro e Que sementes você está regando?, da Monja Coen.

Espírito e consciência

Agora voltando a meada ao existencial, real e experienciado, meditadores e contempladores se deparam com um fenômeno que acontece quando a mente para, quando suas flutuações ou modificações cessam – como diria Patanjali (1.02) – eles experimentam o ser em sua própria natureza (1.03).

Algumas das práticas para se atingir essa percepção são a entrega do eu e o yoga da dissolução.

Nesse momento podemos experimentar a testemunhalidade da consciência ou perceber a nossa existência sem mente, ou seja, a nossa própria vida ou espírito, o que sugere a sobrevivência de nossa essência espiritual à morte não só da mente como do corpo.

Neste ponto, novamente a abordagem materialista pode não estar muito distante da espiritualista: em ambas, em última instância a consciência nasce ou se manifesta da união entre o espírito ou vida e a matéria (que o elegante sistema do Samkhya define como purusha e prakriti), quando o espírito e a matéria “se encontram”, ou quando o “espírito” transforma-se em “matéria”.

“Matéria”, aqui, não se refere necessariamente somente à matéria “física”. Tudo que não é espírito é material, manifestado, incluindo (e desde) a mente e o intelecto.

Existe, não obstante, diferença de opinião de quando a consciência “nasce”: para o materialista somente após a composição cerebral; já para sistemas indianos como o Samkhya, por ex., o próprio purusha ou espírito seria a consciência pura.

Uma vez que a consciência pode se manifestar das mais diversas formas e graus de percepção, começando por diferenças dentro do próprio reino animal, até a manifestação da vida ou espírito como consciência nas formas vegetal, mineral, celular etc. – para nos atermos somente às percepções neste nosso mundo -, convém observar que quando falamos “consciência pura” não estamos nos referindo à “consciência de tipo humano” nem à “autoconsciência”.

Sim, experimentamos a consciência de uma forma humana.

Os antigos rishis ou sábios indianos diziam que o espírito ou ser pode ser percebido de três formas ou a partir de três perspectivas: como existência (sat) consciência (chit) e desfrute (ananda). Ou seja, ainda que a consciência seja diversa da “nossa” ou irreconhecível ou obtusa em alguns casos, não se pode negar a essência como existência ou mesmo como desfrute.

A nossa existência é inegável, como o é a vida nesses termos.

Espírito e morte

Como vimos anteriormente, esse espírito ou vida é como um rio que vive e flui na existência, em todos os seres.

Esses insights ou experiências momentâneas de não-mente ou não-ego podem se tornar mais constantes para o iluminado, para aquele que realmente transcendeu seu eu.

Se ele transcendeu sua pessoa, o que importa se seu corpo físico morre, ou mesmo se sua alma individual desaparece?

Ele sabe que a vida irá continuar (não a sua vida), que o espírito continua (não o seu “espírito”).

Nessa condição, retornando ao tema da Unidade, ele sente e experimenta em seu ser que é ele mesmo quem ama e quem é amado em um outro casal – sem “eu” ou ego, como pode haver ciúme ou inveja? Transcender a mente parece implicar quase fatalmente nessa não-dualidade.

Novamente, aqui, pode não haver muita diferença para a visão materialista. A pessoa morre, esse espírito ou vida universal continua.

Se você está chateada ou chateado com seu fim, acha que o espírito só pode existir se você for imortal, talvez você esteja nos lendo ainda com uma visão personalista e que todo aquele papo de transcendência do ego seja não mais do que uma ilusão mental. Retire-se de cena, finja que você não existe, e perceba.

E que tal o discurso de Sócrates sobre a morte?

Espírito e maya

O impasse materialismo x espiritualismo, feliz ou infelizmente, não é tão simples de resolver, muito por conta de algo que na Índia se chamou maya: uma mistura de ilusão, projeção e sonho que se manifesta em nossa própria composição corpórea.

Nossas camadas psíquicas são até mesmo chamadas de “camadas de maya” ou maya koshas.

Isso quer dizer que o universo que o espírito sonha ou projeta está também dentro de nossas próprias mentes.

Envolvidos em maya, é difícil afirmarmos se aquela visita espiritual que recebemos é uma criação nossa ou uma entidade externa (ou uma mistura de ambas), ainda que a pessoa que passe pela experiência tenha certeza de que ela era real. A própria maya pode ser entendida como real e irreal.

E as realidades percebidas exteriormente também estão em maya! – toda experiência sensorial está nela. Mesmo sem o corpo físico, ainda como “almas individuais” nos manifestamos e experimentamos por veículos de maya.

Agora, “dentro” e “fora”, experiência interior e exterior se confundem. Experiências fora do corpo ou de quase morte, reencarnação, clarividência, mediunidade… tudo isso está nos domínios de maya e muitas vezes possuem em sua composição boa quantidade de conteúdo mental “individual”.

Ao contrário do que se costuma acreditar popularmente tanto na atualidade como na antiguidade, como verificamos em manuscritos e nos relatos de povos nativos, onde as “almas” são seres externos, totais e reais experimentados de forma objetiva, na perspectiva da psicologia junguiana as experiências com “entidades” externas são tomadas como puramente subjetivas, conteúdos do inconsciente.

Em muitos casos percebe-se que a abordagem junguiana explica muito mais satisfatoriamente os fenômenos. Nela, tais “seres” constituem cada um um complexo (ou arquétipo) “autônomo”.

Guaxinim
Guaxinim © Pikist

Porém, como acabamos de ver, objetivo e subjetivo podem ser relativos.

Mas, afinal, o que é espiritual? O que não é espiritual?

Einstein certa vez disse que havia duas formas de ver a vida: uma é acreditar que não existe milagre. A outra é acreditar que tudo é um milagre.

Isso não toca, nem está no âmbito da Psicologia, os domínios do espírito, que está além de maya.

Nós corremos tanto que nos tornamos inconscientes – por isso às vezes é bom parar.

Parando percebemos que talvez o mais importante a lembrarmos é que, manifestado na consciência, nos olhos daquela pessoa, daquele animal, está a vida, o Grande Espírito, aquilo que alguns chamam Deus.

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