➡️ ā (a): aqui, este prefixo parece exercer sua função de significar extensão, expansão ou disseminação para todo lado.
➡️ nanda: felicidade, prazer, alegria.
Ananda: ~êxtase ou “deleite ilimitado”; o próprio Ilimitado (brahman, Tao)
Gênero: masculino. (no sânscrito, mas eles estão errados, ananda não pode ter gênero)
Ananda…
Como definir ananda… não há uma palavra única que o descreva; é um termo sânscrito intraduzível pois refere-se a nosso próprio estado existencial que, além de subjetivo, transcende a mente e é assim inefável.
Se eu tivesse que escolher somente uma, talvez escolheria êxtase (como essência), desfrute ou deleite (sua manifestação neste plano); um deleite fluido, como se você estivesse boiando deitada com a barriga para cima num mar, que é a Existência… é assim também o estado de quietude do presenciador, algo como o estado de graça.

Felicidade. Ananda é um dos três aspectos do ser, da consciência – sendo estes mesmos os outros dois. É a pura beatitude de simplesmente existir que as plantas e aves (que também são sachchidananda) muitas vezes parecem sentir e expressar melhor do que nós.
Ao referirmo-nos ao atman, as palavras que mais se aproximam do que somos são essas, ananda, ser (o estado de existir), e consciência – nossos aspectos.
A nossa verdadeira natureza é sutil; se você parar para pensar esses três termos denotam a subjetividade por excelência, e também uma certa “abstração” quando você os analisa com a mente, já que isto que somos está além da mente.
Ananda é felicidade como um estado de ser, e não como sentimento. Nela, você não sente felicidade, mas é felicidade, no sentido em que não há exatamente um eu para sentir. O sentir e o sentimento são manifestações de ananda, bem como o desfrutar.
É assim diferente da simples euforia ou daquela felicidade mental que depende do outro ou de eventos do exterior. Ela simplesmente existe, você é feliz tal como é, sem motivo algum nem explicação – é um estado de poesia.
A maneira de encontrá-la (ou encontra-se) é antes e simplesmente se autoconhecer do que buscar motivos para ser feliz.
Um discípulo perguntou a Ramana Maharshi: Através da poesia, da música, do japa, do bhajana [devoção], da contemplação de belas paisagens, da leitura de versos espirituais, etc., experimenta-se, por vezes, uma verdadeira sensação de unidade com o todo. Será que essa sensação de profunda e tranquila beatitude (na qual o eu pessoal não tem lugar) é o mesmo que a entrada no Coração da qual Bhagavan fala? Será que a prática disso levará a um samadhi mais profundo e, em última instância, a uma visão total do Real?
Ao que o mestre respondeu:
Há felicidade quando coisas agradáveis são apresentadas à mente. Essa é a felicidade inerente ao Ser, e não existe outra felicidade. E ela não é algo estranho ou distante. Você mergulha no Ser nessas ocasiões que considera prazerosas; esse mergulho resulta na beatitude autoexistente. Mas a associação de ideias é responsável por impor essa beatitude a outras coisas ou ocorrências, enquanto, na verdade, essa beatitude está dentro de você. Nessas ocasiões, você mergulha no Ser, ainda que inconscientemente. Se você fizer isso conscientemente, com a convicção que surge da experiência de que você é idêntico à felicidade que é verdadeiramente o Ser, a única Realidade, você denomina isso Realização. Quero que você mergulhe conscientemente no Ser, isto é, no Coração.
Ramana Maharshi, Ensinamentos Espirituais, p. 99u-100.2
Em ananda, nada nos diferencia da existência, do Todo, brahman, Tao – a autopercepção como ananda acontece quando “você” (~como ego) não está. Não é algo que te acontece, é algo que acontece, que é, que você já é. E, seguindo em paradoxo, quando você não é, você é, “você” se sente como ananda, ou talvez mais precisamente Isto é sentido como ananda.
Êxtase. Esse deleite ou felicidade é o que sentimos com a consciência limitada aos recursos cerebrais atuais, como reflexo dessa nossa verdadeira natureza que, livre desses corpos, é mais bem descrita como êxtase.
Esta nossa essência ananda pode se revelar durante um orgasmo (ou depois dele), numa gargalhada autêntica e irrefreada, no respirar fundo numa fresca, florida e ensolarada manhã e tantos outros momentos de autofelicidade genuína… O êx-tase é quando essa nossa graça flui (nos faz fluir ou nos arrebata) para fora – mas ela é também “êntase“, interior (na verdade já não existe dentro ou fora).
É por isso que um “iluminado”, aquele que (se) conhece, não pode ser mal-humorado. Manifestamos o que somos, ou “a boca fala do que o coração está cheio”.
Amor. Assim podemos perceber o amor como um aspecto de ananda; esta nossa essência “Deus é amor” – parece impossível estar em estado de graça e não amar, ou dizendo melhor, ser amor. Toda forma de amor é uma manifestação de ananda, daquilo que realmente somos; podemos dizer que ananda é o que humanamente entendemos como amor expresso em sua plenitude, totalidade e ilimitalidade, sem barreiras, aquele que não cabe num peito nem se limita a somente um receptor ou grupo. Um ser humano totalmente realizado há de ser amoroso – se ele for “somente” consciente e presente, existente, não sei, parece incompleto.
Integralidade. E o que vem a ser o amor em sua mais elevada expressão? Quando ele transpassa os limites da empatia, você percebe que o objeto do seu amor também é você; você é o mundo. Ananda é o sentido de integralidade, de unidade, totalidade.
Eternidade. Este sentido pouco falado de ananda por vezes parece o que melhor expressa sua natureza expansiva, afluente, abundante, sobejante, perene, ilimitada, como a que se vê no Universo manifestado e que ao mesmo tempo podemos sentir em nós mesmos como o “eterno agora”.
Quando a mente se ausenta. Ao sentirmos ananda, se a mente se intrometer e tentar explicar, a perdemos. Ele é o silêncio da mente ou o próprio silêncio, a paz, a quietude interior aonde dançam nossas manifestações.
A arte geralmente consegue comunicar melhor aquilo que é, por natureza, inefável – pra mim às vezes ananda é como morar na música de Renato Braz.
É a bem-aventurança ou profundo bem-estar que podemos atingir em meditação, ou quando estamos fazendo algo que adoramos, ou quando estamos com quem amamos, ou…

Quando você nasceu, você chorou e o mundo se alegrou.
Provérbio Cherokee
Viva sua vida de tal maneira que, quando você morrer, o mundo chore e você se alegre.
Ananda é a nossa verdadeira natureza. Neste plano, a mente nos envolve em camadas e utiliza filtros para tornar a nossa experiência sensorial comum (compartilhada), viável ou até mesmo sã – não percebemos totalmente nossa própria natureza nem a natureza exterior. Mas não é preciso que ocorram fenômenos parapsíquicos ou um êxtase psicodélico para senti-la – o que você realmente é. Ananda se expressa em situações simples…
podemos chamá-la de alegria.
Devido ao fato que (como dizem as Upanishads) “tu és Aquilo“, também macrocosmicamente ananda é um dos aspectos da Existência, a qual é descrita em muitos manuscritos hindus como sat–chit-ananda ou existência, consciência e êxtase, que se manifestam como ser, conhecer e desfrutar, em outras palavras, existir, estar consciente e sentir.
Assim, personificações desse Espírito Supremo, como Shiva e Vishnu, também utilizam, às vezes, este nome… Ananda.
A dimensão ou camada mais próxima de nosso ser é chamada anandamaya kosha.

Para saber um pouco mais
Alegria: A felicidade que vem de dentro (Osho)
Neste livro, criando com palavras um espaço de compreensão ou realização que transcende a mente, a leitura ou a audição dessas palavras, Osho descreve um pouco mais sobre esta nossa natureza beatífica.
Pesquise aqui referências a Ananda no site.
Conheça também
Aula teórica e prática sobre a técnica de meditação Koan
(Por Otávio Leal - Dhyan Prem)
Acesse a Aula gratuita sobre a técnica de meditação Koan.
Descubra o que é, pra que serve e como fazer.




![Suma Teológica (Tomás de Aquino) [ou Tratado sobre o pecado] - Segunda parte São Tomás de Aquino (Carlo Crivelli)](https://chela.com.br/wp-content/uploads/sao-tomas-de-aquino-carlo-crivelli-140x140.jpg)