Ananda (ānanda): êxtase ou deleite

➡️ ā (a): aqui, este prefixo parece exercer sua função de significar extensão, expansão ou disseminação para todo lado.
➡️ nanda: felicidade, prazer, alegria.
Ananda: ~êxtase ou “deleite ilimitado”; o próprio Ilimitado (brahman, Tao)
Gênero: masculino. (no sânscrito, mas eles estão errados, ananda não pode ter gênero)

Ananda…

Como definir ananda… não há uma palavra única que o descreva; é um termo sânscrito intraduzível pois refere-se a nosso próprio estado existencial que, além de subjetivo, transcende a mente e é assim inefável.

Se eu tivesse que escolher somente uma, talvez escolheria êxtase (como essência), desfrute ou deleite (sua manifestação neste plano); um deleite fluido, como se você estivesse boiando deitada com a barriga para cima num mar, que é a Existência… é assim também o estado de quietude do presenciador, algo como o estado de graça.

Espiral toda em pinceladas brancas em fundo azul bem escuro, quase preto. Dentro da espiral a progressão das cores do espectro, partindo da mais externa: rosa, azul marinho, azul claro, verde, amarelo, laranja, vermelho, no centro volta a ficar o tom azul bem escuro do fundo e bem no centro uma estrela como o sol, em branco com raios azulados, que simboliza a consciência
© arte própria chela. Fundo © pikist.com

Felicidade. Ananda é um dos três aspectos do ser, da consciência – sendo estes mesmos os outros dois. É a pura beatitude de simplesmente existir que as plantas e aves (que também são sachchidananda) muitas vezes parecem sentir e expressar melhor do que nós.

Ao referirmo-nos ao atman, as palavras que mais se aproximam do que somos são essas, ananda, ser (o estado de existir), e consciência – nossos aspectos.

A nossa verdadeira natureza é sutil; se você parar para pensar esses três termos denotam a subjetividade por excelência, e também uma certa “abstração” quando você os analisa com a mente, já que isto que somos está além da mente.

Ananda é felicidade como um estado de ser, e não como sentimento. Nela, você não sente felicidade, mas é felicidade, no sentido em que não há exatamente um eu para sentir. O sentir e o sentimento são manifestações de ananda, bem como o desfrutar.

É assim diferente da simples euforia ou daquela felicidade mental que depende do outro ou de eventos do exterior. Ela simplesmente existe, você é feliz tal como é, sem motivo algum nem explicação – é um estado de poesia.

A maneira de encontrá-la (ou encontra-se) é antes e simplesmente se autoconhecer do que buscar motivos para ser feliz.

Um discípulo perguntou a Ramana Maharshi: Através da poesia, da música, do japa, do bhajana [devoção], da contemplação de belas paisagens, da leitura de versos espirituais, etc., experimenta-se, por vezes, uma verdadeira sensação de unidade com o todo. Será que essa sensação de profunda e tranquila beatitude (na qual o eu pessoal não tem lugar) é o mesmo que a entrada no Coração da qual Bhagavan fala? Será que a prática disso levará a um samadhi mais profundo e, em última instância, a uma visão total do Real?

Ao que o mestre respondeu:

Há felicidade quando coisas agradáveis ​​são apresentadas à mente. Essa é a felicidade inerente ao Ser, e não existe outra felicidade. E ela não é algo estranho ou distante. Você mergulha no Ser nessas ocasiões que considera prazerosas; esse mergulho resulta na beatitude autoexistente. Mas a associação de ideias é responsável por impor essa beatitude a outras coisas ou ocorrências, enquanto, na verdade, essa beatitude está dentro de você. Nessas ocasiões, você mergulha no Ser, ainda que inconscientemente. Se você fizer isso conscientemente, com a convicção que surge da experiência de que você é idêntico à felicidade que é verdadeiramente o Ser, a única Realidade, você denomina isso Realização. Quero que você mergulhe conscientemente no Ser, isto é, no Coração.

Ramana Maharshi, Ensinamentos Espirituais, p. 99u-100.2

Em ananda, nada nos diferencia da existência, do Todo, brahman, Tao – a autopercepção como ananda acontece quando “você” (~como ego) não está. Não é algo que te acontece, é algo que acontece, que é, que você já é. E, seguindo em paradoxo, quando você não é, você é, “você” se sente como ananda, ou talvez mais precisamente Isto é sentido como ananda.

Êxtase. Esse deleite ou felicidade é o que sentimos com a consciência limitada aos recursos cerebrais atuais, como reflexo dessa nossa verdadeira natureza que, livre desses corpos, é mais bem descrita como êxtase.

Esta nossa essência ananda pode se revelar durante um orgasmo (ou depois dele), numa gargalhada autêntica e irrefreada, no respirar fundo numa fresca, florida e ensolarada manhã e tantos outros momentos de autofelicidade genuína… O êx-tase é quando essa nossa graça flui (nos faz fluir ou nos arrebata) para fora – mas ela é também êntase, interior (na verdade já não existe dentro ou fora).

É por isso que um “iluminado”, aquele que (se) conhece, não pode ser mal-humorado. Manifestamos o que somos, ou “a boca fala do que o coração está cheio”.

Amor. Assim podemos perceber o amor como um aspecto de ananda; esta nossa essência “Deus é amor” – parece impossível estar em estado de graça e não amar, ou dizendo melhor, ser amor. Toda forma de amor é uma manifestação de ananda, daquilo que realmente somos; podemos dizer que ananda é o que humanamente entendemos como amor expresso em sua plenitude, totalidade e ilimitalidade, sem barreiras, aquele que não cabe num peito nem se limita a somente um receptor ou grupo. Um ser humano totalmente realizado há de ser amoroso – se ele for “somente” consciente e presente, existente, não sei, parece incompleto.

Integralidade. E o que vem a ser o amor em sua mais elevada expressão? Quando ele transpassa os limites da empatia, você percebe que o objeto do seu amor também é você; você é o mundo. Ananda é o sentido de integralidade, de unidade, totalidade.

Eternidade. Este sentido pouco falado de ananda por vezes parece o que melhor expressa sua natureza expansiva, afluente, abundante, sobejante, perene, ilimitada, como a que se vê no Universo manifestado e que ao mesmo tempo podemos sentir em nós mesmos como o “eterno agora”.

Quando a mente se ausenta. Ao sentirmos ananda, se a mente se intrometer e tentar explicar, a perdemos. Ele é o silêncio da mente ou o próprio silêncio, a paz, a quietude interior aonde dançam nossas manifestações.

A arte geralmente consegue comunicar melhor aquilo que é, por natureza, inefável – pra mim às vezes ananda é como morar na música de Renato Braz.

É a bem-aventurança ou profundo bem-estar que podemos atingir em meditação, ou quando estamos fazendo algo que adoramos, ou quando estamos com quem amamos, ou…

Imagem de vista alta de uma paisagem ensolarada, de um rio margeado por bonitas árvores. Acima à esquerda, a imagem do busto de um líder Cherokee, com opacidade em torno de 50%, que permite ver o céu e montanhas ao fundo. À direita, um sombreamento escuro na imagem com o texto em branco: Quando você nasceu, você chorou e o mundo se alegrou. Viva sua vida de tal maneira que, quando você morrer, o mundo chore e você se alegre. Provérbio Cherokee
Montagem própria chela; paisagem © Pikist / Cherokee © CC (domínio público)

Quando você nasceu, você chorou e o mundo se alegrou.
Viva sua vida de tal maneira que, quando você morrer, o mundo chore e você se alegre.

Provérbio Cherokee

Ananda é a nossa verdadeira natureza. Neste plano, a mente nos envolve em camadas e utiliza filtros para tornar a nossa experiência sensorial comum (compartilhada), viável ou até mesmo sã – não percebemos totalmente nossa própria natureza nem a natureza exterior. Mas não é preciso que ocorram fenômenos parapsíquicos ou um êxtase psicodélico para senti-la – o que você realmente é. Ananda se expressa em situações simples…

podemos chamá-la de alegria.

Devido ao fato que (como dizem as Upanishads) “tu és Aquilo, também macrocosmicamente ananda é um dos aspectos da Existência, a qual é descrita em muitos manuscritos hindus como satchit-ananda ou existência, consciência e êxtase, que se manifestam como ser, conhecer e desfrutar, em outras palavras, existir, estar consciente e sentir.

Assim, personificações desse Espírito Supremo, como Shiva e Vishnu, também utilizam, às vezes, este nome… Ananda.

A dimensão ou camada mais próxima de nosso ser é chamada anandamaya kosha.

Alegria: A Felicidade que Vem de Dentro (Osho)

Para saber um pouco mais

Alegria: A felicidade que vem de dentro (Osho)

Neste livro, criando com palavras um espaço de compreensão ou realização que transcende a mente, a leitura ou a audição dessas palavras, Osho descreve um pouco mais sobre esta nossa natureza beatífica.

Viva La Vida – Coldplay – Karolina Protsenko & Daniele Vitale Sax – Violin Cover – também em nossa playlist principal

Pesquise aqui referências a Ananda no site.

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