O Evangelho de Paulo é, cronologicamente falando, o terceiro evangelho presente no Novo Testamento cristão e o primeiro que não é proveniente de Jesus. Ele é “a boa nova de Jesus Cristo segundo Paulo”.
Ele é apresentado pelo apóstolo em suas sete epístolas originais: Gálatas, 1ª Tessalonicenses, 1ª Coríntios, 2ª Coríntios, Romanos, Filipenses e Filêmon.
Os seguidores de Paulo continuaram a difusão de suas ideias nas outras epístolas que levam seu nome, mas o evangelho de Paulo propriamente dito só pode se limitar a seus próprios escritos.
Os dois “evangelhos de Jesus” mais antigos presentes na Bíblia estão um pouco escondidos ou, dizendo melhor, entremeados com outros conteúdos, dentre os quais a própria teologia paulina. São os conjuntos de tradições orais que podem ser atribuídas a Jesus que lemos no Evangelho de Marcos e aqueles que lemos nos evangelhos de Mateus e Lucas.
O evangelho de Paulo
O início do cap. 15 da 1ª carta aos Coríntios talvez seja a descrição mais sucinta do que é o evangelho de Paulo:
“Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis.
Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão.
Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,
E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.
E que foi visto por Cefas [Pedro], e depois pelos doze…”
Paulo em 1Co 15.1-5, tradução ACF (grifo nosso)

Marcos repete em seu evangelho a teologia exposta aqui por Paulo, primeiramente com a presciência de Jesus sobre o seu futuro (Mc 8.31, 9.31 e 10.32-34), que se dava também por conhecer “as escrituras”, e depois com seu cumprimento. A teologia presente no evangelho de Paulo, que podia estar presente na tradição oral anterior a este, serviu como base narrativa para o evangelho de Marcos, que endereça-se e culmina em sua morte e ressurreição (segundo as Escrituras, “ao terceiro dia nos ressuscitará”: Os 6.2).
O evangelho de Paulo que, conforme ele anunciou, confere a salvação, resume-se em crer-se em Jesus Cristo (Gl 2.16 e Fl 3.9), agora não mais estando sujeito à lei veterotestamentária (Gl 4.1-7).
O “evangelho” de Paulo (palavra do próprio apóstolo) é a base do Cristianismo, que também poderia se chamar Cristianismo Paulino.
Paulo, que pretende saber todos os procederes de Deus (Rm 2.4-8), submete o próprio Altíssimo a seu evangelho:
“Naquele dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, de acordo com o meu evangelho, através de Jesus Cristo.”
Paulo, em Rm 2.16 (Biblehub / ACF)
Aqui, algo “subiu à cabeça” de Paulo. À ilusão das “revelações” de seu próprio Jesus interior somaram-se a sua realização pessoal como apóstolo (enviado ou mensageiro) e líder de seu movimento, seu caráter honesto mas um tanto intransigente e sua lapidação de espírito pelas prisões e perseguições.
Da mesma forma também sabiam todos os desígnios de Deus seus seguidores, como se vê p. ex. em 2ª aos Tessalonicenses (1.7-9, refs.) e, séculos após, Tomás de Aquino.
Desinteresse pelo Jesus histórico
Uma característica peculiar de Paulo e seu evangelho (euanguêlion) é seu desinteresse pelo Jesus histórico e logo pela boa nova apresentada por ele.
No primeiro capítulo de Gálatas, uma das mais antigas epístolas canônicas, no qual ele revela com claridade sua trajetória após a conversão, Paulo fala que quando Jesus foi revelado nele, ele não consultou ninguém, não foi a Jerusalém ter com outros apóstolos (Gl 1.15-17), mas sim para a Arábia, viagem da qual não temos informação sobre o propósito mas que de alguma forma contribuiu para trazer de volta um Paulo com seu próprio evangelho de Jesus.
Uma palavra sobre Lucas e Atos
Paulo escreveu (ele ditava as cartas) até o ano de 63 ou 64. A data estimada do Evangelho de Lucas e do livro Atos dos apóstolos é entre os anos de 80 e 110 ou 120. A tradição atribuiu, posteriormente, esses escritos a Lucas, médico e companheiro de Paulo, mas é improvável que ele seja seu autor.
Assim como os evangelhos, Atos não é um livro histórico. É melhor encaixado como um livro apologético com elementos históricos e contos “historicizados”.
É nesse compêndio que se insere a história da conversão de Paulo em Damasco relatada em At 1.9, que tem toda a probabilidade de ser invenção do autor de Lucas-Atos, já que Paulo não a relata em suas cartas.
Mais inconsistências entre Paulo e Atos podem ser vistos no vídeo Fatos e mitos sobre Paulo de Tarso (apóstolo), em que a historiadora Dra. Juliana Cavalcanti explica também outros temas do livro de Atos, como a mitologização dos apóstolos através de relatos que reproduzem as façanhas de Jesus.
Paulo quer sublinhar sua independência de fontes humanas e sua dependência direta de Deus ou Jesus (Schökel, em comentário de Gl 1.15-17)
Somente após três anos, nos quais Paulo quase inevitavelmente já vivia e amadurecia seu evangelho, ele voltou para Jerusalém para ver Pedro, com quem ficou quinze dias, e Tiago, o justo, “irmão do senhor” (Gl 1.18-19).
Por que Paulo se esforça tanto não só para se libertar da autoridade dos líderes em Jerusalém, mas para denegri-los e descartá-los como irrelevantes ou pior? Ocorre que as opiniões de Paulo sobre Jesus são tão extremas, tão além dos limites do pensamento judaico aceitável, que apenas afirmando que elas vêm diretamente do próprio Jesus é que ele poderia conseguir pregá-las. O que Paulo oferece em suas cartas não é, como alguns de seus defensores contemporâneos opinam, apenas uma forma alternativa de encarar a espiritualidade judaica. Paulo, em vez disso, ofereceu uma doutrina completamente nova, que teria sido ela toda irreconhecível para a pessoa em quem ele afirma se basear. Pois foi Paulo quem resolveu o dilema dos discípulos, de conciliar a morte vergonhosa de Jesus na cruz com as expectativas messiânicas dos judeus, simplesmente descartando essas expectativas e transformando Jesus em uma criatura completamente nova, que parece ser quase por inteiro de sua própria autoria: Cristo.
Reza Aslan, em Zelota: A vida e a época de Jesus de Nazaré, cap. 14
Paulo não conhece Jesus em vida. Também parece não se interessar pelos ensinamentos de Jesus que certamente circulavam na tradição oral e que poderiam já possuir formas escritas. Sua autoridade vem de sua visão extática de Jesus e de misteriosos contatos (ou simples interiorizações) e revelações que a ele teriam sido transmitidas, em detrimento, muitas vezes, do próprio ensinamento do Jesus vivo.
Paulo afirma que não recebeu nem aprendeu de homem algum, “mas por revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.11-12), a quem, repetimos, ele não conheceu em vida.
O curioso é que o Cristianismo, tão avesso à comunicação dos espíritos, seja baseado em um espiritismo.
No vídeo Apóstolo Paulo vs Jesus histórico, o Prof. Jonathan Matthies explora a questão da interpretação de Paulo das escrituras, possivelmente de Is 53, sua doutrina baseada em visões e alheia a Jesus e a outros apóstolos, o papel de seu Cristo ressuscitado em detrimento do Jesus real e finalmente a “volta” da teologia paulina aos evangelhos canônicos.
Autodefesa e autoapologia de Paulo e de seu evangelho
Veja em outra página a defesa e apologia que Paulo faz de si mesmo, do seu ministério e da sua doutrina ou evangelho, em conflito com outras correntes de seguidores de Jesus.
O evangelho de Paulo e as leis
Paulo é apaixonado, alma de fogo que se consagra sem limites a um ideal. E este ideal é essencialmente religioso. Para ele, Deus é tudo e ele o serve com lealdade absoluta, primeiro perseguindo os que ele tem na conta de hereges (Gl 1.13; cf. At 24.5;14), depois pregando Cristo, após haver entendido por revelação que só nele está a salvação. Este zelo incondicional traduz-se pela vida de abnegação total ao serviço daquele que ele ama…
Bíblia de Jerusalém (formato grande, 1ª ed., 5ª reeimp.), p. 1954u (Introdução às epístolas de São Paulo)
Apesar de Paulo pregar uma mensagem de independência da lei mosaica, isso é um pouco ilusório. Na prática sua mensagem está completamente condicionada pelo Tanaque, a “bíblia hebraica” ou Antigo Testamento cristão, ao qual ele se reporta, cita e alude continuamente durante as epístolas. Ademais, ele mesmo cria novas – e retoma antigas – instruções para comunidades que passaram a ser seguidas pelos cristãos como leis ou mandamentos, como palavra de Deus.
Paulo era judeu, israelita, fundamentalista e profundo conhecedor da lei judaica e das escrituras. Ele não “esqueceu” todo esse conhecimento, pelo contrário, utilizou-o para formar o seu cristianismo segundo as Escrituras. E isso foi seguido pelos evangelistas, com o propósito de estabelecer a nova religião em uma base sólida e milenar. O preço disso foi que o Cristianismo nunca se “libertou”, realmente, da lei.
Um exemplo claro é a manutenção do dízimo hebreu no Cristianismo, continuada, de certa forma, pelo próprio Paulo, como em Hb 6.20–7.1-3, onde Jesus agora é o sumo sacerdote a quem se deve o dízimo.
Que se diga que a atitude honesta e singela de Paulo (p. ex. 1Co 9.12-15), para não ser pesado aos fieis (1Ts 2.9 e 2Ts 3.8), com relação ao dízimo e a seu “sacerdócio” estava longe daquela de muitos líderes antigos e atuais, que o transformaram em uma máquina de exploração humana e geração de recursos, distribuídos arbitrariamente (às vezes descaradamente) entre o uso pessoal e o da igreja.
Como Paulo convida todos a o imitarem (1Co 4.16 e 11.1), não é de surpreender que muitos de seus seguidores, desde sempre, mantenham o aspecto fanático ou fundamentalista de seu discurso, como quando colocam Jesus no papel de vingador ou castigador dos que não obedecem ao evangelho (2Ts 1.7-9).
A imitação é sempre trágica; não seja um imitador (nem mesmo de si próprio), só a autenticidade pode te conduzir ao real. A imitação de Paulo leva muitos cristãos a cindirem a si mesmos, como veremos.
Carne ou espírito
Dentre as leis instituídas ou endossadas por Paulo, está uma que se tornou constante não só em sua obra, mas foi refletida, inclusive aumentada, nas outras epístolas (pseudopaulinas e gerais) e se vê por todo o restante do NT: a oposição de carne (sárx) e espírito (pneuma).
Cronologicamente falando, uma das primeiras passagens paulinas que faz essa distinção está na Epístola aos Gálatas (5.16-21), em um discurso, que continua nos v. 22-26, sobre a independência da lei por parte do espírito e de quem vive “em espírito”.
“Pois os desejos da carne são contrários ao espírito, e o espírito contrário à carne; porque eles são opostos um ao outro, de forma que não fazeis o que quereis.”
Paulo aos Gálatas 5.17, próxima da tradução da Bíblia do Peregrino (ver ACF / Bible Hub)
Paulo aqui está dividindo o ser humano em dois. Somos, de fato, muito mais do que a carne, o corpo, a mente, etc., estamos além de tudo isso, mas utilizamos esses mecanismos para interagir neste mundo e o estar contra eles nos faz dividirmos contra nós mesmos. Primeiro porque apenas uma pessoa em 1 milhão tem essa percepção clara de que não é corpo nem a mente (a mente faz parte dos mundos manifestados, o espírito está além). Segundo que mesmo esta pessoa não está contra a carne, contra o corpo, contra o material, ela está em harmonia com eles e, se não estivesse, mais dificilmente atingiria o espírito, pois sua mente estaria empenhada na luta contra a carne.
Neste caso ficamos estabelecidos e identificados com a mente, que está contra a carne, e não estamos de fato vivendo “em espírito”, habitando nele.
O versículo de Paulo está incorreto porque o espírito não pode estar contra a carne, contra a criação, pois esta é extensão dele mesmo, sua manifestação. Se ele tivesse usado a palavra psyhê, traduzida geralmente como “alma”, que às vezes é sinônimo de pneuma mas também pode significar a mente, o versículo estaria existencialmente mais correto, mas existencialmente ainda incorreto e nocivo, pois não é através do conflito entre mente e corpo que se logrará verdadeiro conhecimento do espírito, autoconhecimento ou conhecimento de Deus.
Continuando com a perícope, nos v. 19-21 Paulo lista as manifestações das obras da carne, sendo que entre o 20 e o 21 ele cita atitudes pouco louváveis, concluindo que seus autores “não herdarão o reino de Deus”. Basicamente ele atribuiu, não sem razão, à carne ou instinto tudo o que é ruim, mas esquece-se das coisas boas, ou, dizendo melhor, imputa-as ao espírito (v. 22), como o gozo ou alegria (hará) que se manifesta pela carne – como na verdade todas os outros frutos do espírito, que também deveriam ser citados como obras da carne, pois é o meio pelo qual se manifestam.
Mas ele separa o gozo ou alegria do prazer, sobretudo o sexual, que ele condenava, ainda que cite outros em suas formas exageradas (bebedeiras e glutonarias no v. 21). As primeiras obras da carne listadas no v. 19 são:
- pornêia: prostituição ou comportamento semelhante ao de uma prostituta; fornicação ou ato sexual que não entre cônjuges.
- akatharsía: impureza, imundícia. (aqui no sentido moral, “indecência”)
- asêlgeia: licenciosidade; lascívia; devassidão; luxúria; sensualidade exagerada.
Para Paulo e seus seguidores (de antes e de hoje), o sexo era considerado, basicamente, pecado, exceto quando praticado moderadamente dentro do casamento. Doutrinas que seguem essa filosofia como a católica de Tomás de Aquino afirma que o sexo só não é pecado se feito com a intenção de procriação (similarmente a Tobias 6.16-22 e 8.9).
E a consequência de não seguir a moralidade paulina é “não entrar no reino de Deus”, o reino de Deus de Paulo, é claro. A nossa sorte é que Paulo estava equivocado. Assim como em 1Co 6.10, novamente aqui Paulo não sabia do que estava falando. Lá, seu sofisma foi agrupar ladrões com efeminados; aqui, contendas e homicídios com sexo. O comportamento sexual em si não é impeditivo para se entrar no reino de Deus. (Não estamos dizendo, é claro, que quando combinado a atos nocivos ao outro e a si mesmo, como a agressão e o estupro, não seja prejudicial e errado.)
“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.”
Paulo aos Gálatas 5.24, tradução ACF
A questão de Paulo e de líderes e sacerdotes cristãos e de tantas outras religiões é diretamente relacionada com o sexo em si, contra o corpo (v. 17), contra a natureza, contra a manifestação natural. No caso do Cristianismo isso é uma continuação do AT, como no Sl 51.5: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.”
Desde que o ser humano não pode se separar do corpo e seus instintos, sua condenação serviu, serve e servirá sempre como uma forma de escravizá-lo através da culpa. E aqueles que por infelicidade lograram “crucificar a carne” como Paulo pede, não obtiveram disso mais do que sofrimento e um orgulho na mente de ter vencido seus corpos – mas estão na mente, não no espírito. Ame seu corpo, ame suas paixões, flua com eles, torne-se esse amor – é um caminho muito mais certo para se chegar ao espírito e viver nele, que é afinal a que se destina a mensagem do apóstolo (v. 5.25).
Quando você entender que você não é pecador ou pecadora, que na verdade a própria palavra “pecado” é existencialmente incorreta, você se livra dessa teologia do pecado.
A remissão dos pecados é um dos pilares desse cristianismo, paulino. Sem o pecado, se não estivermos sob o pecado (Rm 3.9), ele perde a razão de ser.
Também é existencialmente incorreto que agora “em Cristo” as “paixões do pecado” não operam mais em nós (Rm 7.4-6). Pois muitas dessas “paixões” são, na verdade, a própria natureza, o que nos permitiu estar aqui, nas quais não existe pecado algum.
Finalmente, em Rm 13.11-14 Paulo reúne os dois pontos mais falhos de seu evangelho: à sua condenação da carne soma-se sua previsão escatológica. Talvez a primeira estivesse condicionada pela última: se o mundo ia acabar em breve, poderia fazer sentido (dentro de sua ótica um tanto moralista) abandonar a carne; mas acontece que o mundo continuou e segue continuando para bilhões de pessoas, para as quais não faz sentido algum fazê-lo.
A segunda parte de nossa análise da Suma Teológica (ou Tratado sobre o pecado) de Tomás de Aquino explora mais a fundo essa questão do sexo e do carnal x espiritual.
Um evangelho que não se cumpriu
Na Palestina do primeiro século, existia a crença patente de que o final dos tempos, o grande dia do Senhor, estava próximo. Esse dia já estava próximo desde os tempos do Antigo Testamento e, embora diversos de seus textos sejam explicações para eventos catastróficos ao longo da história hebreia, as descrições presentes em diversos manuscritos suscitavam sua expectativa.
São exemplos diversas passagens em livros de profetas:
- Joel (1.15 etc.),
- Sofonias (ver cap. 1, como 1.14-18),
- Zacarias (que a partir do cap. 9 possui muitos elementos apocalípticos [“Naquele dia…”], até o final do cap. 14),
- o Livro de Enoque (amplamente conhecido e influente no mundo antigo e parte de cânones hebreus e posteriormente cristãos até o séc. V),
- Isaías (caps. 24 ao 27 e 34 e 35, estes últimos do “2º Isaías”),
- Ezequiel (como 7.12 e caps. 38 e 39) e
- especialmente a segunda parte do livro de Daniel, das visões apocalípticas, dos caps. 7 ao 12.
“Tocai a trombeta em Sião, e clamai em alta voz no meu santo monte; tremam todos os moradores da terra, porque o dia do Senhor vem, já está perto;
Dia de trevas e de escuridão; dia de nuvens e densas trevas, como a alva espalhada sobre os montes; povo grande e poderoso, qual nunca houve desde o tempo antigo, nem depois dele haverá pelos anos adiante, de geração em geração.”
Jl 2.1-2, tradução ACF
Paulo escreve sobre a iminente parusia, a volta de Jesus que, de fato, não aconteceu. Jesus não voltou.
Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: Que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem.
Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro.
Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor.
1Ts 4.15-17, tradução ACF
Paulo acreditava que a volta de Jesus estava próxima, que ele e muitos de seus interlocutores estariam vivos nela, conforme afirma também em 1Co 15.51-52 e Fl 1.6 e 1.10. A imagem da trombeta pode ter tomado de Is 27.13. O vir em nuvens é de Daniel (7.13). E finalmente, num exemplo de como os escritores dos evangelhos incorporam a teologia paulina, o evangelista de Mateus coloca tudo isso na boca de Jesus (Mt 24.30-31).
Muitas de suas instruções para as comunidades ou congregações (eklessías), como as matrimoniais de 1Co 7.26-35, estavam condicionadas por esse pensamento da iminente parusia e fim dos tempos.
O fim dos tempos do AT estava ligado à ira de Deus com os seres humanos (como Ez 7.3) para punir seus pecados, à ira humana projetada em um “Deus” vingativo criado pelo homem, um Deus que nesse aspecto não existe. Todo esse contexto apocalíptico com 3 mil anos de idade, da bíblia hebraica até a cristã, é ilusório. (Na prática, estamos caminhando sozinhos para nossa própria dizimação ou aniquilação da vida nesta Terra.)
O curioso sobre o evangelho de Paulo é que se trata de um evangelho expirado. Seu palpite escatológico, baseado na junção da crença apocalíptica da época com sua interpretação de Jesus, estava equivocado, e isso é prova suficiente de que seu alegado contato direto com o Cristo-Deus era ilusório. Mas de alguma forma isso não manchou sua autoridade, muito por causa do trabalho de “recálculo de rota” e remodelagem de discurso empreendido por seus seguidores nas epístolas pseudopaulinas e nos evangelhos canônicos, escritos após a geração de Paulo e com conhecimento de suas frustradas expectativas.
A expressão máxima dessa reformulação está em Mc 23.32: “Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai.”
Jesus não voltou
Como vimos, talvez a mais importante tarefa da comunidade cristã nas gerações seguintes a Paulo foi reparar sua previsão escatológica e adiar a volta de Cristo.
A expectativa da parusia das cartas autênticas de Paulo é substituída por uma cristologia mais desenvolvida e um foco na organização da Igreja, como se vê nos evangelhos canônicos e em epístolas tardias como Efésios.
Desta forma também se inicia, de maneira muito diferente das cartas paulinas, diria que até melancólica, a epístola forjada “a Tito”:
A Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum: Graça, misericórdia, e paz da parte de Deus Pai, e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador.
Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei:
Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes…
Tito 1.4-6…, tradução ACF
São as gerações seguintes a Paulo. A parusia não aconteceu, Jesus não voltou. É hora de nomear os presbíteros (anciãos), líderes que formarão os conselhos (cf. 1Tm 5.17 e At 14.23), é hora de organizar as congregações de cada cidade, etc.
E ainda hoje as pessoas dizem: “Jesus está voltando”. Está voltando há dois mil anos. Não está, não voltou, não voltará. Esse Cristo que ressuscitou e que voltará é uma fantasia, equívoco e criação de Paulo e possivelmente de outros primeiros cristãos (cf. Tg 5.79).
Não é só a evidência teológica que está contra Paulo, mas sobretudo a evidência existencial, aqueles que atingiram um certo grau de autoconhecimento podem lhe garantir, como nós garantimos aqui, que, apesar de naturalmente ter ensinamentos úteis e passagens de rara beleza como o “Hino ao amor” (1Co 13), o evangelho de Paulo está equivocado em seus fundamentos.
Paulo foi um judeu-cristão do séc. 1, mas Deus não é um judeu-cristão do séc. 1.
De volta a Jesus
O motivo desta exposição do evangelho de Paulo é introduzi-lo para demonstrar como a teologia presente nele foi misturada ao evangelho de Jesus, o que resultou nos evangelhos canônicos que conhecemos.
Deixando Paulo, podemos mergulhar em Jesus.
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